"> A Sala de Espera • Miss Mãe
 
22/07/2015

A Sala de Espera

IMG_20150722_181330

_ E aí? Preparados?

_ Sim doutor!

_ Então vamos lá. Você vai assistir?

_ Sim.

_ Ótimo. A enfermeira vai acompanhar você até a Sala de Espera.

_ Espera?

_ Sim, para o procedimento padrão de troca de roupa. Quando estiver tudo pronto mando te chamar. Vai levar só uns minutinhos. Débora, como você está linda! Nem parece grávida. Tem certeza que tem um bebê aí dentro?

_ Ah, doutor! Tenho sim. Esses 11 quilos não são meus.

(…)

_ Moça, como eu visto esse treco? Põe pela frente mesmo?

_ A amarração é atrás pai. Assim.

_ Ah, ótimo.

_ Agora a touca e por último a máscara. Pronto.

_ Já posso ir pra sala de cirurgia?

_ Não. O médico te chama quando chegar a hora. Por enquanto fique aqui.

(…)

_ Débora, o meu auxiliar está atrasado. Vou te colocar no soro enquanto aguardamos, ok?

_ Tudo bem doutor.

_ Mas me conta, como tem passado os últimos dias?

_ Ansiosa.

_ As mulheres adoram essa palavra, não é mesmo? As grávidas então…

_ Eu arrumei e desarrumei a malinha dele mil vezes. Me arrependi de deixar tudo pronto meses antes. Agora no final não tinha nada pra fazer, quase enlouqueço.

_ Por que não aproveitou pra dormir, ou assistir aquele filme de 5 horas? Sabe que ficará um tempo sem fazer isso né?

_ Dormir eu não consigo há meses, e nunca tive vontade de assistir a um filme de 5 horas.

_ Ah, mas é porque você não conhece os filmes do Quentin Tarantino. Como é mesmo o nome?

(…)

Que estranho, não me chamam…  Será que aconteceu alguma coisa? Não. Deve ser o procedimento normal da operação. Eles precisam de concentração para os preparativos e eu sou apenas um pai com uma câmera fotográfica. Sento ou fico de pé? Acho que vou ficar de pé. Não, melhor não. Tô parecendo um Zé Mané aqui na porta. Vou sentar.

(…)

_ Hahahahaah eu amei esse filme, muito engraçado.

_ E a hora que ela pega o filho no colo e diz “Ele já faz xixi no pinico”

_ E o menino faz xixi no colo dela?

_ Isso!

_ Hahahaa, doutor essa é a melhor parte!

(…)

Não. Isso não está certo. Meia hora esperando? Só pode ter acontecido algo. Será que a Dalva sabe de alguma coisa?

_ Sogra, você está no quarto ainda? Tô aqui esperando me chamarem. Mas já faz meia hora que me colocaram numa sala sozinho. Já, já. Tô com a roupa. Eu não sei! Não me falam nada. Não tem ninguém aqui. E tenho medo de sair pra procurar alguma enfermeira e me chamarem bem na hora. Sei. Tá bom. Vou continuar esperando.

(…)

_ Gato ou cachorro?

_ Gato

_ Cerveja ou chopp?

_ Cerveja.

_ Sábado ou domingo?

_ Sábado.

_ Baralho ou dominó?

_ Dominó! Lembra o meu avô!

_ Campo ou praia?

_ Os dois.

_ Não vale Débora! Tem que ser só um.

(…)

Meu Deus… Sei que nunca te pedi nada. Mal sei rezar. Mas, por favor, abençoe a minha mulher e o meu filho que estão no centro cirúrgico agora. Eu te peço que intervenha para que nenhum mal aconteça a qualquer um dos dois. Ela é a minha vida, e ele o meu tudo. Perdoe-me por não ter levado ela no Mcdonald´s aquele dia. E desculpe por ter preferido o churrasco ao ultrassom de 5 meses. Prometo que nunca mais jogo futebol de sexta-feira. Por favor meu Deus, eu imploro. Perdoe esse pai que está aflito nessa sala de espera.

(…)

_Hahahahaha! Você caiu com a cara no chão?

_ Foi menina. Escorreguei no gel. Aquele que a gente passa na barriga antes de fazer o ultrassom. Daí na hora de pegar o aparelho, Paf! Vi o chão com o zoom máximo.

_ Mentira!

_ Doutor, desculpe o atraso. Tinha um acidente na avenida principal.

_ Ah, tudo bem Carlos. Aproveitei pra colocar a conversa em dia aqui com a Débora. Nossa, nem vi o tempo passar. Estamos nesse bate papo já tem mais de 1 hora.

_ Meu Deus! O Alexandre… Doutor! Esquecemos de chamar o meu marido!

(…)

_ Tô tentando, mas não consigo né pai. Eu sei que ainda não me falaram nada. Mas sinto que alguma coisa aconteceu. Sabe pressentimento? Estou em lágrimas. Vou sair agora e cobrar satisfação. Arrume um advogado. Vamos processar esse hospital. Não! Eu não vou me acalmar eu só …

_ Senhor Alexandre?

_ Estão aqui na sala pai, depois eu ligo para o senhor.

_ Me diga que está tudo bem, por favor. Diga que a minha mulher e o meu filho estão a salvo.

_ Do que você está falando pai? Enxugue essas lágrimas… Você não quer que seu filho te veja nesse estado não é mesmo?

(…)

_ Ah! Chegou o papai do ano! Estávamos aqui combinando de tomar um vinho qualquer dia desses. Você, a Débora, eu e a minha esposa. Que tal lá em casa? Ao som de um bom e velho jazz.

Vou te dizer jajá aonde eu vou tomar esse vinho.

_ Alê, tá tudo bem? Parece que estava chorando.

_ Chorando? Imagina! Estou super bem. Mega calmo, zero estresse. Sou praticamente um Buda sentado ao sol, meditando por um mundo melhor.

_ Preparados? Tô vendo aqui a cabeça… A careca é sua pai! Opa, opa, opa! Vem cá bebezinho!

_ Unhé Unhé Unhé Unhé Unhé

_ Quer segurar pai?

_ Ai, não sei…

_ Se não quiser, sem problemas. Depois você terá tempo. Vamos levá-lo agora para outra sala, procedimento padrão. Vai levar só uns minutinhos.

_ Minutinhos? Outra sala? Procedimento padrão? Me dê aqui o meu filho. Se quiser fazer qualquer coisa vai ser comigo do lado.

_ Débora, como você diz que prefere gato e casa com um pitbull?


Essa crônica é baseada em fatos reais! Quem me contou essa história foi a Débora Mendes, mãe do Felipe e da Ana Júlia. 

Tem uma história engraçada sobre a maternidade e gostaria que ela virasse uma crônica? Me conte de forma resumida. Quem sabe ela não aparece por aqui? 

Bjs,

Missmãe

Voltar